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sexta-feira, 29 de maio de 2009

O Jornalismo de Causas existe? Responde o Prof. Chaparro


Jornalista desde 1957, o Prof. Chaparro é doutor em ciências da Comunicação, professor de jornalismo na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, Brasil. Conquistou quatro Prêmios Esso de Jornalismo. Consultor da Voice Comunicação Institucional, actualmente, dedica-se também ao seu blog O Xis da Questão. Lançou recentemente um interessante livro sobre Jornalismo Comparado.
Manuel Carlos Chaparro tem a particularidade de ser natural de Abrantes, Tramagal, e de ser Jornalista residente do Jornal regional “O Ribatejo”.

Achei interessante desafiar o Prof. Chaparro para uma conversa sobre jornalismo de causas. Pese embora a sobrecarga de agenda que mantém no Brasil, o professor acedeu a dispensar-me alguns minutos da sua dispobilidade para responder a algumas questões que agora aqui partilho com todos os visitantes do Blog.
Obrigada ao Prof. Chapparro!
"Notícias que Nunca te Direi": Num mundo cada vez mais globalizado, faz sentido falar de um jornalismo de causas?
Carlos Chaparro: É inadequado denominar-se “Jornalismo de Causas” uma prática discursiva em que se usam as artes e as técnicas do Jornalismo para fazer algo que está mais próximo da propaganda que do Jornalismo – e entenda-se por Propaganda uma linguagem cujo fim específico é a difusão de idéias ou doutrinas (portanto, causas) para ações de convencimento à adesão. Esse meu entendimento da questão em nada reduz o mérito social e/ou cultural das causas. Mas Jornalismo é outra coisa, porque dele se exige a virtude essencial da veracidade e da independência, para que possam aflorar as ações, as falas e os embates dos protagonistas da atualidade, que não são os jornalistas. Nessa perspectiva, quem deve propor, defender e debater causas são os sujeitos sociais produtores dos fatos e das falas noticiáveis, cabendo ao jornalismo o papel que lhe é próprio: ser linguagem socializadora veraz, eficaz para o relato e o comentário do que de relevante acontece, e espaço publico confiável, para que nele se realizem com sucesso os conflitos que interessam à sociedade.
"Notícias que Nunca te Direi": A concentração de meios de comunicação por grupos empresariais contribui para a falta de sensibilidade nas matérias escolhidas pelos editores, no que ao jornalismo de causas diz respeito?
Carlos Chaparro: Como faceta do capitalismo movido a lucro, a concentração empresarial dos meios de comunicação pode oferecer riscos aos processos da democracia e da cultura, mas em nada ameaça a agenda de causas, que deve pertencer, não às redações, mas a grupos sociais organizados produtores de acontecimentos e geradores de conteúdos noticiáveis. Algumas Ongs vinculadas a causas (meio ambiente, inclusão social, combate à fome, por exemplo), fazem um trabalho notável de geração de conteúdos que interessam ao relato e ao comentário jornalísticos. Quando socializados e debatidos pelo Jornalismo, esses conteúdos têm um potencial transformador incomparavelmente superior ao que alcançariam se fossem uma ação de jornalistas.
"Notícias que Nunca te Direi" : O jornalismo de proximidade ofuscou o jornalismo de causas? Ou complementam-se? Ou considera que têm objetivos idênticos?
Carlos Chaparro: No meu conceito, não existe “jornalismo de proximidade” nem “jornalismo de causas”. Proximidade e causas são componentes inevitáveis e importantes do Jornalismo, em sua totalidade. A proximidade é um atributo essencial de noticiabilidade de qualquer facto ou fala relevante da atualidade – proximidade não apenas física, mensurável, mas principalmente proximidade abstrata em relação ao universo de interesses dos pessoas e dos grupos sociais; e causa está no cerne das razões de ser das ações humanas noticiadas e/ou noticiáveis.
"Notícias que Nunca te Direi": Fazer jornalismo de causas é seguir no “fio da navalha” da deontologia?
Carlos Chaparro: Na minha opinião, a questão nada tem a ver com deontologia, que vem a ser o tratado dos comportamentos profissionais. Não se pode colocar essa temática em molduras do BEM e do MAL, pois falamos apenas de conceitos. O bem e o mal estão em outro universo, o universo da Ética e da Moral, portanto, no universo do agir humano e das suas razões de ser, tendo em vista os valores e os ideários estabelecidos pelas sociedades, em suas marchas civilizacionais.
"Notícias que Nunca te Direi": O Brasil tem boas práticas de jornalismo de causas? E em Portugal? É possível fazer uma comparação?
Carlos Chaparro: O Brasil tem uma sociedade extraordinariamente dinâmica, recheada de instituições e práticas de democracia participativa, numa lógica de lutas por causas. Faz parte das competências dessas instituições a capacidade de produzir e socializar, pelas vias jornalísticas, o discurso de causas embutido nos acontecimentos noticiáveis que promovem. Acredito que a vida democrática portuguesa esteja também marcada por cenários e experiências semelhantes.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Notícias sobre Voluntariado - Boas Práticas

Para encerrar o capítulo sobre Voluntariado, fui à procura de boas práticas jornalisticas.
Encontrei um trabalho da Jornalista Sofia Gonçalves, publicado no Jornal "Nova Aliança", em 2006.
A Sofia "levantou-se" da secretária (desculpem a indirecta), e foi ver como se pode aliviar um pouco da dor dos outros. O Voluntariado no Hospital de Abrantes originou uma boa reportagem, da qual aqui deixo um excerto. Obrigada à Sofia e parabéns pela inicitiva.

"Ser voluntário é ser deliberadamente útil, sem esperar recompensas nem compensações. Ser voluntário é, por vezes, uma bênção do céu para quem é beneficiado.
Quando se fala em voluntariado pensamos em pessoas reformadas, que realizam serviços de voluntariado para ocuparem o seu tempo, mas é um pensamento errado.
O Jornal Nova Aliança foi conhecer a equipa de voluntários do Hospital Dr. Manoel Constâncio, em Abrantes, e dá a conhecer o seu trabalho, mostrando como um sorriso, uma palavra ou simplesmente um carinho podem tornar a medicina muito mais humana.
Ser voluntário num Hospital significa muito mais do que fazer uma acção em prol do outro. É contribuir para melhorar a qualidade de vida de quem necessita de cuidados de saúde, é dar-se a si e ao seu tempo, sem querer nada em troca, pois amanhã poderemos ser nós a precisar. É esta a determinação da equipa de voluntários do Hospital Dr. Manoel Constâncio, composta por cerca de 40 elementos de todas as idades, profissões, que, de “bata amarela e verde”, percorrem alguns dos corredores do Hospital em busca de quem necessita do conforto merecido. Quando falamos que o voluntariado é para todas as idades podemos exemplificar com o caso de a voluntária mais activa ter 86 anos de idade e o mais novo ter 18 anos.
Todos os dias, com excepção ao fim-de-semana, estas pessoas somam solidariedade e humanismo ao trabalho realizado pelos profissionais de saúde.(...)
No Hospital Dia os voluntários fazem um trabalho muito interessante junto dos doentes oncológicos. É um trabalho muito motivante e, simultaneamente, intenso. Nesta Unidade os 7 voluntários dividem-se em equipas de dois e desenvolvem as suas tarefas uma vez por semana, das 10h às 12h. Quando há consultas o horário prolonga-se até às 14h. Além do acompanhamento aos doentes é servido, por voltas das 11h, uma refeição leve, um chá ou um café, umas bolachinhas ao sabor de uma conversa acolhedora, dando, simultaneamente todo o apoio psicológico que estes doentes tanto necessitam, assim como aos seus familiares. Também ajudam os doentes a passar o tempo enquanto realizam o seu tratamento, que em media pode durar cerca de 3 horas. Uma das voluntárias frisou que muitas vezes são os doentes “que solicitam a nosso apoio psicológico”. Neste espaço, intenso em que as emoções estão à flor da pele, criam-se amizades com os doentes e com os profissionais de saúde que nunca se esquecem. (...)




domingo, 3 de maio de 2009

SOS Crianças Talibãs


Em 2000 estive na Bósnia como enviada especial do órgão de Comunicação Social para o qual trabalhava. Na altura, passava ainda pouco tempo sobre o final da guerra. O cenário de destruição, a fragilidade e as carências a vários níveis que as populações locais viviam, particularmente as crianças, foram marcas que me acompanharam durante longo tempo. Trouxe, acho que os jornalistas que trabalham nestes cenários todos trazem, muitos pedidos de ajuda e muitos "não se esqueçam de nós". A obrigação profissional é muita vez ultrapassada pela vontade e o anseio de podermos fazer um pouco mais, de sermos úteis, porque somos humanos.
Vem isto a propósito de uma informação que acabei de descobrir num dos Blogs que acompanho diariamente. Foi aqui que fiquei a saber que A ONG "SOS-Crianças Talibés" é o fruto de um fantástico trabalho do professor Malan, um muçulmano que luta contra os mestres corânicos que levam as crianças para as madrassas, mas que, na verdade, as obrigam a ir para a rua mendigar. Há meninos e meninas de três e quatro anos com latas do Mido penduradas ao pescoço por um cordel a pedir nas ruas da Guiné e do Senegal.
Em Portugal, o rosto deste projecto é o jornalista Luís Castro da RTP, reporter de guerra, que tem acompanhado alguns conflitos internacionais: Iraque; Afeganistão; Angola; Guiné; Timor-Leste. Na sua página na Internet, Luís Castro conta que aONG “SOS-Crianças Talibés” precisa de 12 mil euros para construir o centro em Bafatá e para comprar 4 motorizadas e algumas bicicletas. Só assim poderão acolher as “crianças talibés” resgatadas aos traficantes (já conseguiram recuperar 1.200) e deslocar-se às tabancas, sensibilizando os pais para os perigos que correm ao deixar que os filhos sejam levados para as madrassas.
Aqui está o verdadeiro Jornalismo de Causas.
Ver também as reportagens do Luís Castro